segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Resenha: E a vida continua... (Chico Xavier, 1968)

FEB (2007), 296 páginas
"Somos viajores do berço para o túmulo e do túmulo para o berço, renascendo na Terra e na Espiritualidade, tantas vezes quantas se fizerem precisas, aprendendo, renovando, retificando e progredindo sempre, conforme as Leis do Universo, até alcançarmos a Perfeição, nosso destino comum..."

Com este livro, o médium Chico Xavier encerra a série de 13 obras ditadas pelo espírito André Luiz, batizada pela Federação Espírita Brasileira (FEB) de "A vida no mundo espiritual", que trouxe diversas "atualizações" à Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec em meados do século XIX. Aliás, "E a vida continua" traz uma homenagem ao primeiro centenário do livro "A Gênese", última obra do pensador francês, de 1868, traçando um paralelo com o fechamento da codificação kardecista. Aqui, após 24 anos desde o lançamento de "Nosso Lar" (1944), André Luiz também fecha sua contribuição sistemática ao Espiritismo com revelações acerca da chamada erraticidade (a vida do espírito entre a morte do corpo físico e o renascimento em nova encarnação); do intercâmbio entre os dois planos, físico e espiritual; dos processos mediúnicos e obsessivos; acerca da reencarnação e da justiça divina; e, como de praxe na literatura espírita, também traz exemplos da aplicação prática dos ensinos de Cristo, tendo em vista o progresso espiritual dos leitores. Particularmente, trata de questões ligadas ao amor, pois "estamos situados na faixa de expressiva transição, a transição do amor narcisista para o amor desinteressado", e aí Emmanuel, guia espiritual do médium, reconhecendo a relevância do tema, prefacia "o novo livro de André Luiz na certeza de que surpreenderemos em suas páginas muitos pedaços de nossa própria história".

O livro conta a história de Ernesto e Evelina, que se conhecem num hospital e sentem uma súbita afinidade que os torna "irmãos numa doença rara", a despeito da grande diferença de idade entre eles. Conversam sobre a vida após a morte mal sabendo que em breve conheceriam o outro lado da vida. Ambos se reencontram no plano espiritual e daí, pelos próximos 22 capítulos (de 26), enveredam numa trajetória evolutiva que os levará ao autoconhecimento, à compreensão e reconciliação com os inimigos, e ao engajamento no doloroso trabalho imposto pelo arrependimento de erros deixados irreparados no plano físico.

A alegoria do cocheiro é uma forma didática de compreender
a morte física e a sobrevivência da alma.
O texto é repleto de situações e ensinamentos que exemplificam os princípios da Doutrina Espírita. Particularmente interessante, pela didática da explicação, é a alegoria do cocheiro, que esclarece a relação entre espírito, perispírito (o "corpo espiritual") e corpo físico. Há momentos em que as reflexões tocam questões que também têm emergido da nova Física, como a do senso de realidade, uma vez que a própria matéria é "luz coagulada", e a consciência é o denominador comum das duas manifestações da existência, física e espiritual. "[...] Tanto lá [na Terra] como aqui [no plano espiritual], conhecemos, na essência, muito pouco acerca do meio em que vivemos [...] quem lhe disse que não moramos lá, na arena terrestre, detidos igualmente num certo grau da escala de impressão do nosso Espírito eterno? [...] O mundo terrestre é aquilo que o pensamento do homem faz dele [...] Cá e lá, o que se vê é a projeção temporária de nossas criações mentais...". Uma relevante conseqüência dessa concepção, de que, em essência, somos nosso Eu imaterial, manifesto na carne, é a de que, portanto, "depois da morte, somos o que fizemos de nós, na realidade interna".

Outra reflexão também me remete à Física Quântica, ou melhor, à filosofia da nova Física. No hospital, Ernesto e Evelina falam da sobrevivência da alma e, nesse ponto, é bastante inspiradora a visão mais otimista do estado de morbidade, que lembra passagens do livro "O ponto de mutação", do físico austríaco Fritjof Capra, escrito em 1983. Ernesto diz: "[...] não consigo furtar-me à sede de estudo. Antes da moléstia, reconhecia-me seguro da vida. Comandava os acontecimentos, nem sabia, ao menos, da existência desse ou daquele órgão no meu corpo. Entretanto, um tumor na supra-renal não é uma pedra no sapato. Tem qualquer coisa de um fantasma, anunciando contratempos e obrigando-me a pensar, raciocinar, discernir...". E aí desponta o papel da doença na reespiritualização do homem: "A moléstia aflitiva nos dá direito de entretecer novos recursos e novas interpretações, ao redor da vida e da morte". Autoconhecimento e revaloração das próprias concepções também constam como efeitos colaterais do novo estado mental do doente e/ou moribundo em posse de suas faculdades de raciocínio.

Mas, o que não se consumar ainda em vida, desse reexame de consciência, forçosamente tem de prosseguir após a morte. Evelina, que "gastara a existência na condição de satélite de três pessoas, o marido, a genitora, o padrasto", e Ernesto, responsável provedor de sua família, se veem na contingência de dar prossegumento a essa revisão de si mesmos, ela, para quem "[...] qualquer felicidade [...] é uma luz misturada de sombra", ele, "o suposto homem de bem". A máscara de "personalidades-legendas" cai, porque muitas vezes somos "titulares desses ou daqueles encargos, sem que venhamos a executá-los de modo efetivo", pais que não agem como pais, esposas que não agem como esposas, etc., tendo importante papel nessa autorreflexão a aceitação de que "todos aqueles que nos conhecem possuem determinada versão de nossas experiências para uso deles próprios", incluindo-se aí os adversários, que portam necessárias verdades sobre nós mesmos, das quais precisamos para evoluir. E do arrependimento à ação retificadora, a atitude indispensável dos que se propõem auxiliar as almas aflitas deixadas pra trás: "Quase sempre, a recuperação de alguém é uma planta sublime da alma que somente vinga porque a abnegação de outro alguém se dispõe a adubá-la com a proteção da ternura e com o orvalho das lágrimas".

Representação artística
de André Luiz.
O foco do livro, ou seja, dos problemas dos dois protagonistas, é a culpa originada do amor sem equilíbrio. Como diz Emmanuel em "Vida e Sexo",  "no rol das defecções, deserções, fraquezas e delitos do mundo, os problemas afetivos se mostram de tal modo encravados no ser humano que pessoa alguma da Terra haja escapado, no cardume das existências consecutivas, aos chamados 'erros do amor'" (op. cit., capítulo 22). Ainda: "A guerra efetivamente flagela a Humanidade, semeando terror e morticínio, entre as nações; entretanto, a afeição erradamente orientada, através do compromisso escarnecido, cobre o mundo de vítimas. [...] os problemas do equilíbrio emotivo são, até agora, de todos os tempos, na vida  planetária" (op. cit., capítulo, 6). Nessa seara de lide reparadora, Ernesto e Evelina irão haurir os esclarecimentos de que "[o ser humano é] um ser de inteligência refinada pelos poderes que adquiriu na caminhada evolutiva em que se empenha, desde muitos séculos, mas ainda oscilante, de modo geral, entre animalidade e humanização". De fato, "temos teorias de santificação para o sentimento, mas, na essência, somos, na prática, simples iniciantes. Na esfera dos pensamentos nobres, assimilamos o influxo dos Planos Gloriosos; todavia, no campo dos impulsos inferiores, carregamos ainda o imenso fardo de desejos deprimentes, que se constituem de vigorosos apelos à retaguarda". Como "a Justiça Eterna funciona no foro íntimo de cada criatura" e "não vem sem apoio na misericórdia", "ninguém atingirá o porto da dignidade espontânea, sem viajar, por longo tempo, nas correntes da vida , aprendendo a manejar o leme da disciplina". "O destino é a soma de nossos próprios atos". Assim, "a lei de amor deve efetivar-se, independentemente das formas em que o amor se expresse".

Enfim, enquanto ainda estamos aqui:

"[...] a vida na Terra deve ser interpretada como um trabalho especial para o espírito [...] a existência carnal é um ofício ou missão a desempenhar"

Fica o conselho dado a Ernesto e Evelina, que é para todos nós:

"Portem-se na base do novo entendimento".

Ernesto e Evelina, interpretados por Luiz Bacelli e Amanda Acosta, no filme "E a vida continua..." (2012), baseado da obra homônima de Chico Xavier. Unidos por uma simpatia mútua, descobrem que suas vidas se ligam por vínculos até então ignorados entre suas famílias. Juntos, se veem na contingência de encarar os dolorosos problemas deixados no mundo dos vivos e de assumir seu papel no soerguimento espiritual de si mesmos e de seus parentes na Terra. "Quanto maior a cultura de um Espírito encarnado, mais dolorosos se lhe mostrarão os resultados da perda de tempo. Quanto mais rebelde a criatura, mais aflitivas se lhe revelarão as conseqüências da teimosia" (Emmanuel, prefácio).

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