segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Resenha: "Sexo e Destino" (Chico Xavier e Waldo Vieira, 1963)

FEB (2009), 456 páginas
"Reduzi, quanto puderes, as quedas de consciência! Quando não seja por vós, fazei-o pelos mortos, que vos amam de uma vida mais bela!"

Grande romance psicografado pelos médiuns Waldo Vieira e Chico Xavier, "Sexo e Destino" traz um valioso estudo de caso em que o sexo aparece como pivô das mais diversas vicissitudes da vida do Homem, tanto como força de derrocada moral, sob o desvio impresso pelos desvarios sentimentais, quanto "atributo divino na individualidade humana", ensejando a sublimação dos seres.

Com o manifesto objetivo de que possamos "aprender com a biblioteca da experiência", o autor espiritual alinhava uma trama na qual os personagens desta "biografia de grupo" tomarão a lição de que "o amor e o sexo plasmam responsabilidades naturais na consciência de cada um e que ninguém lesa alguém nos tesouros afetivos sem dolorosas reparações". 

Apresentando os casos como verídicos, em mensagem psicografada em julho de 1963, o autor prefacia sua pungente narrativa elucidando que "sexo e destino, amor e consciência, liberdade e compromisso, culpa e resgate, lar e reencarnação constituem os temas deste livro, nascido na forja da realidade cotidiana".

Compartilhando com as demais obras da farta literatura espírita o valor edificante da mensagem, "Sexo e Destino" se destaca por contar entre a histórica série de escritos que aliou o ensino moral à atualização doutrinária do Espiritismo. Do primeiro livro, "Nosso Lar" (1944), ao 13º. e último, "E a vida continua..." (1968), André Luiz traz a lume detalhes da chamada "erraticidade", apenas definida na produção de Allan Kardec. Trata-se do período em que o espírito "erra" entre a morte do corpo físico (desencarnação) e a retomada de um novo corpo nascituro (reencarnação). É justo por isso que este 12º. volume se reveste de tanta relevância na abordagem da cada dia mais inquietante questão da sexualidade humana, não restrita à sua manifestação erótica, na cópula, mas concebida como o amplo espectro de vinculações que as forças genésicas engendram entre as pessoas, as mais importantes das quais constituindo a família.

Representação artística
de André Luiz
A história se passa no Rio de Janeiro, presumivelmente na década de 50. Uma senhora padecendo de um câncer terminal é acompanhada pelo espírito de seu falecido pai, Neves, revoltado com as condições em que Beatriz suporta sua dor: o tálamo conjugal maculado pelo envolvimento do marido, Nemésio, um "sessentão desavergonhado", com sua jovem funcionária. O vexame familiar se complica com o jogo duplo em que Marina também envolve o filho do patrão, Gilberto, seduzindo-o de junto da própria irmã, Marita, de quem o rapaz principiara a enamorar-se. A partir desse começo prosaico, descortina-se um cenário de conflitos acerbos não só entre os membros das duas famílias como dos de cada uma entre si, revelando que no lar se traça "o estreito círculo das provas"

O texto está repleto de fatos e expressões da terminologia técnica espírita sem, no entanto, comprometer o entendimento do leitor leigo: o contexto deixa claro a que se referem e o uso de analogias permite melhor compreensão. Nesse rol temos a obsessão, que se caracteriza pela intervenção de um espírito (obsessor) sobre uma pessoa encarnada, propositadamente ou não causando efeitos nocivos na vida do obsidiado. Dois exemplos são o efeito de Moreira (uma entidade) sobre Cláudio, estimulando-o à bebida e à volúpia incestuosa, e sobre Marina, enlouquecendo-a. Todavia, a ação benfazeja de entidades amigas permeia a inteira narrativa, especialmente na inspiração de ideias e sentimentos e no suporte magnético, o famoso passe, que é uma transfusão de energia com a qual espíritos benfeitores ("anjos da guarda", espíritos familiares, etc.) promovem o reequilíbrio orgânico e mental de seus protegidos. Outro fenômeno espírita melhor elucidado na obra de André Luiz é o que Kardec chamou de "emancipação da alma", mais conhecido na atual literatura esotérica, parapsicológica e científica como projeção astral: há um desacoplamento da alma da pessoa, durante o sono, e seu duplo (o espírito em corpo fluídico, isto é, corpo de matéria sutil, semelhante ao corpo físico) se afasta da matéria densa, experienciando uma vivência em quase nada distinta da vida biológica. No livro, vemos Marita deixar o corpo após dormir e sair em busca de Gilberto, objeto de seu afeto, mas em estado de desequilíbrio: é que o corpo entorpece a mente em desatino, protegendo-a de certa forma, e, longe dele, o efeito das ideias fixas, viciosas, faz as almas agirem como verdadeiros zumbis.

Waldo Vieira, hoje desligado do
Espiritismo, conduz estudos de
projeção da consciência desde 1966
As mais chocantes revelações sobre a erraticidade, que caracterizam a famosa série de André Luiz, são as atividades incessantes das organizações instituídas no plano espiritual para socorro aos "mortos" e às almas de seus afins, afetos que se mantém além da vida, ainda encarnados no plano terrestre. Em "Sexo e Destino" lemos sobre o "Almas Irmãs", instituição em que espíritos de pessoas cujas últimas encarnações tenham falido em desequilíbrios sexuais são acolhidas e instruídas para retorno ao plano físico com fim de resgatar os débitos pretéritos: estupro, adultério, abandono do lar, aborto, prostituição, sedução, promiscuidade, etc., são atos que maculam as consciências de pessoas que fizeram mau uso de suas faculdades genésicas acarretando ampla rede de causa e efeito, cobrando de si mesmas a reparação pelo dano físico e moral infligido a outras consciências. 

E é no "Almas Irmãs" que André Luiz obterá esclarecimentos sobre os difíceis transes em que os membros dos dois clãs se debatem, em problemas nada incomuns à experiência geral das demais famílias: paixões violentas, hábitos desagregadores, frieza entre cônjuges, conflitos entre pais e filhos, inimizade entre irmãos, etc. Para cada filho de Deus a Providência Divina vai ofertando as oportunidades de reerguimento - mesmo para o autor da mais tétrica cena do livro, que deixará o leitor com o coração lanceado de angústia -, encaminhando para a pacificação das próprias ideias e sentimentos, há muito em desalinho com os propósitos do Criador, remontando a vidas passadas, encerradas com pendências de reajustes. E aí entra o princípio da reencarnação, mecanismo da justiça que reaproxima vítimas e agressores, corrompidos e corruptores, para a conciliação sob coerção dos vínculos de sangue e compromissos afetivos.

À medida em que se descortina para a Ciência a plausibilidade da sobrevivência da consciência após a morte e seu retorno ao corpo através da reencarnação, a perspectiva espiritualista deste livro sobre a problemática sexualidade humana vai adquirindo mais e mais relevância para a compreensão das dores que constituem a base de toda experiência de vida dos Homens sobre a Terra.

Futuramente, neste blog, obras que irão fazê-lo repensar a natureza do Homem e o sentido da vida e da morte.

4 comentários:

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  2. Importante antevisão do mundo atual em que as preferências sexuais se tornam cada vez mais indefinidas. Nos cap finais um instrutor prevê que leis mais justas e uma maior compreensão da sociedade aceitará sem restrições legais ou sociais os relacionamentos homoafetivos.

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  3. Olá, Zarthur! Obrigado por deixar aqui sua contribuição! O livro "Vida e Sexo", do espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, trata de diversos assuntos relacionados à sexualidade pela óptica da vida no Mundo Maior, inclusive tem umas ponderações muito interessantes sobre uma das causas da homossexualidade, fundada em experiências de vidas anteriores. Também recomendaria o livro "Reencarnação - 20 casos" do psiquiatra Ian Stevenson, que já resenhamos aqui no Ler É Viver (http://projetolereviver.blogspot.com/2014/11/resenha-reencarnacao-vinte-casos-ian.html), que traz alguns casos em que o gênero sexual de uma encarnação pregressa afeta a sexualidade na encarnação atual. Outro livro dele muito bom é "Crianças que se lembram de vidas passadas". Vale muito a pena investir nessas três obras. Abraço!

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  4. Terminei de ler ontem e, nossa... A narrativa mexeu muito comigo, do início ao fim. Fiquei muito feliz em saber que existe o "hospital-escola" Almas Irmãs e mais feliz ainda em conhecer um pouco do trabalho que eles fazem lá. Deus é muito bom! Temos tantos recursos a nosso favor! Gostei muito do livro <3

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