terça-feira, 5 de agosto de 2014

Resenha: "Há dois mil anos" (Chico Xavier, 1939)

FEB, 495 páginas
"A expiação não seria necessária no mundo, para burilamento da alma, se compreendêssemos o bem, praticando-o por atos, palavras e pensamentos" (Emmanuel)

Para o cético, a autoria desta obra cabe ao mineiro Francisco Cândido Xavier (1910 - 2002), de cujas mãos saíram mais de 400 obras, muitas das quais com tiragem de milhões de exemplares, portanto entre os títulos mais lidos da produção literária nacional. Dessa forma, sendo Chico Xavier o autor, por que então seu nome não figuraria na galeria dos grandes escritores brasileiros?

Para milhões de espíritas e simpatizantes, porém, "Há dois mil anos" foi produzido através de um fenômeno mediúnico chamado "psicografia", por meio do qual uma entidade espiritual se manifesta no plano material e dirige um veículo humano, o médium, para a escrita de suas ideias. Aliás, por esse motivo, Chico Xavier renunciou aos direitos autorais de todo seu trabalho porque "os livros não são meus, são obra dos espíritos".

Considerado um dos dez melhores romances espíritas do século XX, "Há dois mil anos" surpreende por seu valor literário e espiritual. De fato, a obra trata de acontecimentos do primeiro século, entre os anos 32 d.C e 79 d.C., cujos desdobramentos trazem ao primeiro plano dramas psicológicos intensos vividos por personagens marcados por tragédias em amplos aspectos da experiência humana (doença, crise conjugal, desvarios de sensualidade, cobiça, orgulho, vingança, etc.) mas também por culminâncias das potencialidades muitas vezes ignotas do Homem, na fidelidade, na amizade, no perdão e, acima de tudo, na conquista da fé.
Chico Xavier


Dividido em duas partes de 10 capítulos cada uma, "Há dois mil anos" é um grande "mea culpa", enriquecido por inúmeros detalhes de época que pintam em cores vivas os cenários do antigo império romano, transportando os leitores para o cotidiano e as paisagens de Roma e da Palestina, ruas, portos, bairros, objetos, costumes, política e religião de dias acessíveis apenas pela arte e pelas investigações históricas, com o intuito manifesto já na introdução "de algo aprenderdes nas dolorosas experiências de uma alma indiferente e ingrata (...) a fim de que minha confissão seja um roteiro para todos".

O autor espiritual, Emmanuel, que vinha se manifestando ao médium de Pedro Leopoldo desde 1931, expõe aqui um enfoque autobiográfico que relata "não uma lembrança interessante acerca de minha pobre personalidade" mas o pungente processo pelo qual veio a conquistar não somente a fé mas também uma compreensão renovada do amor. Reconhecendo ainda a longa caminhada que tem diante de si, admite com humildade que "sinto-me ainda envolto na miséria de minhas fraquezas e contemplo os monumentos das vaidades humanas".

Em sua encarnação como Públio Lentulus, um orgulhoso senador romano, Emmanuel vive a experiência do despertar da fé. Revelação serôdia desse processo é preludiada no primeiro capítulo, quando Públio revela um sonho que ele toma como lembrança de uma vida passada. Além disso, a questão da justiça divina é posta numa pergunta sua que bem poderia ser a de qualquer um de nós: "Que alegria poderiam encontrar as nossas divindades nos soluços de uma criança e nas lágrimas dolorosas que nos calcinam o coração?". Esses rudimentos de espiritualidade se desenvolverão ao longo dos quase 50 anos da vida do protagonista cobertos na narrativa, e passarão por percalços tenebrosos a que sua soberbia pagã dará início.

Representação artística
de Emmanuel
A seu lado, na vida e na obra, figura a heroína da narrativa, sua esposa Lívia, a quem o amor imperfeito de Públio dedicou tanto a canção "alma gêmea de minhalma" como as acerbas prepotências de uma postura que degenera da defesa da "dignidade e austera nobreza, predicados esses que ninguém, mais do que eu, deve conhecer" para a crença cega na calúnia de "personificação da falsa inocência". Lívia faz o contraponto com Públio, dois caminhos cruzados que se se separam e seguem por vias diferentes para o mesmo destino. Ela, iluminada pelos "clarões da confiança humana na Providência Divina", ele, "humano, e nessa condição miserável, tinha de ser um fruto de seu tempo, sua educação e do seu meio".

"Há dois mil anos" traz também um retrato dos primeiros anos do Cristianismo. São memoráveis não só a passagem da descrição do profeta de Nazaré, na carta que Públio enviou ao imperador, como na revelação dos bastidores do julgamento mais injusto da História, que levaria Jesus à morte infamante no Gólgota. O martírio dos primeiros cristãos, o atroz espetáculo das arenas do circo romano e o sangüinário massacre dos judeus rebeldes durante e após a derrubada de Jerusalém, no ano 70 d.C., suplementam de realismo a magistral lição de vida que o inspirado texto de Emmanuel contribui para os cristãos dos dias atuais.

"Admitindo, agora, a existência de um Deus Todo-Poderoso, fonte de toda a misericórdia e todo o amor, creio que a sua Lei é a do bem supremo para todas as criaturas." (Emmanuel).

3 comentários:

  1. Obrigada pela contribuição! Esta obra está na minha relação de livros espíritos que eu quero conhecer. Saber de antemão algumas informações permite uma leitura mais atenta a detalhes do enredo, permitindo um aproveitamento melhor da leitura. Espero que outras pessoas aproveitem o conteúdo desta resenha e fiquem motivadas para a leitura. Abraços!

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    1. Esperamos poder resenhas mais obras espíritas, que muito contribuem pro nosso desenvolvimento interior.

      Também desejo escrever algo sobre a psicografia, como forma de produção literária, porque, quem não acredita na intervenção de espíritos, tem aí, pelo menos, um intrigante fenômeno psicológico de estado alterado de consciência, o que já foi comprovado cientificamente em exames de ressonância magnética envolvendo médiuns psicógrafos. Ler obras criadas assim é no mínimo fascinante.

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  2. Passei por mtas "tribulações" na minha vida sentimental e esse livro foi indicado p eu ler e tentar entender o pq tinha q passar por TD q passei. Estou ansiosa p começar a ler. Gostei da resenha.

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