terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Resenha: Beethoven (Edmund Morris, 2005)

Objetiva (2005), 287 páginas
"Ela evocava um homem tão possuído pela música que trabalhava do amanhecer ao anoitecer, quase sempre esquecendo de comer; sem amigos por escolha própria; inspirado mais pelo ritmo das palavras do que por seu significado; que tinha confiança absoluta no valor duradouro da arte e dizia que a música era 'a mediadora entre a vida da mente e a dos sentidos'." (Impressões de Bettina sobre Beethoven, em carta a Goethe)

Premiado autor de biografias, o queniano Edmund Morris dedicou 50 anos de sua vida a estudar a vida e a obra da "mente mais possante na história da música", Ludwig Van Beethoven (1770 - 1827), cujo nome é sinônimo de genialidade não só no Ocidente mas em todo o mundo. Daí o subtítulo, "O compositor universal", desta breve mas pungente biografia que é "a história de uma vida, e não uma pesquisa sobre a obra de Beethoven". Como o autor diz no prólogo, "a universalidade de Beethoven, [deve-se a] sua habilidade de englobar a ampla gama da emoção humana, desde o terror da morte ao amor à vida - e a metafísica mais além -, reconciliando todas as dúvidas e conflitos em uma catarse de som". Movido pela "grandeza de suas aspirações", o mestre alemão "[sentia] que compunha [...] para a comunidade humana". A "intemporalidade de Beethoven", "sua originalidade [que] o impedia de repetir-se", tornaram-no, dentre os grandes compositores, "o mais duradouro em seu apelo a diletantes e intelectuais".

sábado, 13 de dezembro de 2014

Poesia: "O outro Brasil que vem aí" (Gilberto Freyre, 1926)

O outro Brasil que vem aí (*)

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e das regiões.
As mulheres do Brasil em vez de cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores
          [europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar)
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalhem por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos desse Brasil que vem aí.

(*) Gilberto Freyre (extraído da obra Talvez Poesia, Rio de Janeiro, José Olympio, 1962), autor de Casa Grande e Senzala (leitura obrigatória para quem quer saber um pouco sobre a formação da nação brasileira).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Resenha: Jesus, o Filho do Homem (Khalil Gibran, 1928)

Martin Claret (2014), bolso, 165 páginas
"Mas esse homem, Jesus, esse Nazareno, Ele falou de um Deus tão vasto que não se parece com a alma de qualquer homem, sábio demais para punir, amoroso demais para lembrar os pecados de todas as Suas criaturas. E esse Deus do Nazareno irá passar através dos limiares da consciência dos filhos da terra e sentará à lareira deles e será uma bênção no interior de seus muros e uma luz sobre o caminho deles." (Um filósofo persa em Damasco)

O que um muçulmano tem a ver com Jesus? Essa é uma pergunta que encerra duas ignorâncias fundamentais. A primeira, a do desconhecimento de que o Islã vê Jesus (em árabe ʿĪsā) como um mensageiro de Deus de uma maneira especial, talvez até mais que Maomé, uma vez que seu nome aparece mais vezes no Alcorão do que o do Profeta, e atribuem-se a ele qualidades sobre-humanas que Maomé jamais arrogou a si mesmo. A segunda, de que Khalil Gibran (pronuncia-se, aproximadamente, /Jubrã/), embora nascido no Líbano, veio de família cristã maronita, intimamente ligada à Santa Sé da Igreja Católica, religião que desempenha importante papel cultural e político na história de seu país, por exemplo, na chefia do estado (com duas exceções, desde o Pacto Nacional de 1943, todo presidente do Líbano é maronita) e na língua siríaca empregada na liturgia, dialeto originado do idioma que teria sido falado por Jesus, o aramaico. Gibran recebeu também influência do Islã, em especial dos sufis (místicos muçulmanos) e da Fé Bahá'í, tendo, portanto, uma formação religiosa multi-confessional.

É com grande interesse que volvemos a atenção para o que o autor do mundialmente famoso "O profeta" tem a dizer sobre Jesus, nessa obra construída como uma coletânea de 77 depoimentos (fictícios) de testemunhas da época de Cristo, amigos, familiares, opositores, etc., em prosa recendendo a poesia, acrescida do 78°. testemunho, de "um homem do Líbano, dezenove séculos depois" - ele mesmo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Resenha: Fahrenheit 451 (Ray D. Bradbury, 1953)

Ed. Globo (2009), 256 páginas
"E pensei nos livros. E pela primeira vez percebi que havia um homem por trás de cada um dos livros. Um homem teve de concebê-los. Um homem teve de gastar muito tempo para colocá-los no papel. E isso nunca havia me passado pela cabeça."

Fahrenheit 451, "a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima", é um clássico da distopia, assim como "Admirável mundo novo", "Laranja mecânica" e "1984". Nesta obra, Bradbury, conhecido por seus livros de ficção científica, conta uma história futurista na qual a maior tecnologia já desenvolvida pela humanidade é sistematicamente eliminada a pretexto da garantia da felicidade da população: os livros são queimados, paradoxalmente, por bombeiros, um dos quais Montag, o protagonista que enunciou a citação acima.

Huxley lidou com o (ab)uso da Ciência, principalmente da Genética, para a maximização do prazer de viver; Burgess, com o emprego do condicionamento neopavloviano (lavagem cerebral) para combate à criminalidade; Orwell descreve uma sociedade em que o mal (tudo o que contraria as diretivas do Partido) é "vaporizado", em que a história é um eterno palimpsesto, apagada e reescrita, e o controle extremo sobre as pessoas visa reformar a própria mente, tornando qualquer antagonismo ao poder tecnicamente impensável. Bradbury escreve sobre a ponte que liga nossos dias a esses prováveis futuros, que, se ainda nos parecem hoje lugar (-topia) que dificilmente poderíamos aceitar habitar (dis-), não parecem inverossímeis alternativas de amanhã dados os passos que a sociedade já tem dado em direção a ele: a busca de prazeres imediatos ("modernidade líquida", segundo o filósofo Zygmunt Bauman), caracterizada em "Fahrenheit 451" pela substituição dos livros por mídias simplificadas (simplistas) e vazias, como a TV interativa. Afinal, sempre incomodou que os livros tenham "consciência demais do mundo".

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Resenha: Depois da morte (Léon Denis, 1889)

FEB (26ª. ed., 2007), 336 páginas
"Quando a Química nos ensina que nenhum átomo se perde, quando a Física nos demonstra que nenhuma força se dissipa, como acreditar que esta unidade prodigiosa em que se resumem todas as potências intelectuais, que este eu consciente, em que a vida se desprende das cadeias da fatalidade, possa dissolver-se e aniquilar-se?" (grifo do autor).

Essa foi a grande questão que o francês Léon Denis perseguiu desde a juventude. Autodidata que afundava nos livros, aos dezoito anos se deparou, por acaso, com "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, que direcionou sua vida para o campo do experimentalismo psíquico, da filosofia espírita e para o trabalho de defesa e divulgação da Doutrina, que, na França, lhe rendeu o epítome de "Apóstolo do Espiritismo". De cidade em cidade, muitas vezes a pé, com cajado na mão, Denis realizou palestras e conferências, e escreveu brochuras sobre a existência de Deus, as bases lógicas e empíricas da vida após a morte e as implicações morais daí decorrentes. Aos 43 anos, Denis publicou "Depois da Morte" (Après la Mort), que sintetiza sua bandeira de luta, uma "filosofia serena e profunda", que moveu um enlutado ateu a se expressar desta forma: "Li 'Depois da morte' e chorei as lágrimas mais doces de minha vida [...] Gostaria de ser rico para editá-lo aos milhões e vê-lo em todas as mãos, sobre toda a Terra. Nada jamais será escrito em qualquer língua que seja tão grande e tão belo" (Em "Léon Denis,  L'Apôtre du Spiritisme - Sa vie, son œuvre").

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Resenha: Reencarnação - vinte casos (Ian Stevenson, 1974)

Vida & Consciência (2011), 520 páginas
"No dia 19 de janeiro de 1951, Ashok Kumar, conhecido como Munna, filho de seis anos de Sri Jageshwar Prasad, [...] foi atraído para longe do local onde brincava e brutalmente assassinado, com uma faca ou lâmina, por dois vizinhos [...] Alguns anos depois, [o pai] ficou sabendo que um menino nascido em outro Distrito de Kanauj, em julho de 1951 [...] havia descrito a si mesmo como o filho de Jageshwar, um barbeiro do Distrito de Chhipatti, e havia dado detalhes de 'seu' assassinato, dizendo o nome dos assassinos, o local do crime e outras circunstâncias da cidade e da morte Munna" (O caso de Ravi Shankar).

Foi no livro "A explicação do inexplicável" (Explaining the Unexplained: Mysteries of the Paranormal, 1982) que tomei conhecimento das pesquisas do psiquiatra canadense Ian Stevenson a respeito da reencarnação. O psicólogo britânico Carl Sargent e o psiquiatra alemão Hans Jürgen Eysenck apresentam naquela obra diversas evidências (ou pelo menos indícios intrigantes) da sobrevivência da alma após a morte do corpo físico, como os fenômenos de poltergeist, as experiências de quase morte (EQM), experimentos do tipo ganzfeld (percepção extrassensorial), comunicações mediúnicas e, finalmente, relatos de lembranças de vidas passadas investigados por diversos cientistas ao redor do mundo, mas com destaque para o pioneirismo de Stevenson. "O que mais qualifica o trabalho de Stevenson é seu profissionalismo próximo do intimidante", comentam. De fato, em cerca de 50 anos de diligência, mais de 2.500 casos foram catalogados com cuidado obsessivo. Embora cauteloso quando aos dados levantados nesse incipiente campo de pesquisa, Stevenson chega a afirmar com segurança que "alguns dos [vinte] casos [deste livro] fazem muito mais do que sugerir a reencarnação: parecem oferecer boas provas".

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Resenha: E a vida continua... (Chico Xavier, 1968)

FEB (2007), 296 páginas
"Somos viajores do berço para o túmulo e do túmulo para o berço, renascendo na Terra e na Espiritualidade, tantas vezes quantas se fizerem precisas, aprendendo, renovando, retificando e progredindo sempre, conforme as Leis do Universo, até alcançarmos a Perfeição, nosso destino comum..."

Com este livro, o médium Chico Xavier encerra a série de 13 obras ditadas pelo espírito André Luiz, batizada pela Federação Espírita Brasileira (FEB) de "A vida no mundo espiritual", que trouxe diversas "atualizações" à Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec em meados do século XIX. Aliás, "E a vida continua" traz uma homenagem ao primeiro centenário do livro "A Gênese", última obra do pensador francês, de 1868, traçando um paralelo com o fechamento da codificação kardecista. Aqui, após 24 anos desde o lançamento de "Nosso Lar" (1944), André Luiz também fecha sua contribuição sistemática ao Espiritismo com revelações acerca da chamada erraticidade (a vida do espírito entre a morte do corpo físico e o renascimento em nova encarnação); do intercâmbio entre os dois planos, físico e espiritual; dos processos mediúnicos e obsessivos; acerca da reencarnação e da justiça divina; e, como de praxe na literatura espírita, também traz exemplos da aplicação prática dos ensinos de Cristo, tendo em vista o progresso espiritual dos leitores. Particularmente, trata de questões ligadas ao amor, pois "estamos situados na faixa de expressiva transição, a transição do amor narcisista para o amor desinteressado", e aí Emmanuel, guia espiritual do médium, reconhecendo a relevância do tema, prefacia "o novo livro de André Luiz na certeza de que surpreenderemos em suas páginas muitos pedaços de nossa própria história".

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Resenha: Muitas vidas, muitos mestres (Brian L. Weiss, 1988)

Ed. Sextante (2009), 144 páginas
"Não temia mais a minha própria morte ou a não-existência. Tinha menos medo de perder os outros, mesmo sabendo que iria sentir falta deles. Como é poderoso o medo da morte! [...] Ficamos tão preocupados com nossas próprias mortes que esquecemos o verdadeiro objetivo de nossas vidas."

Neste livro, o psiquiatra Brian Leslie Weiss apresenta um caso de terapia que mudou não só a vida de sua paciente como a sua própria. Formado em Yale, uma das 10 melhores universidades do mundo (52 laureados Nobel), Weiss "fazia parte da nova geração de psiquiatras biologistas", focado na nova ciência da química cerebral, moldando-se "aos estreitos caminhos do conservadorismo da minha profissão". Até então havia escrito 37 artigos científicos, e foi com visão de cientista que teve de lidar com fatos para os quais não tinha nenhuma explicação, reconhecendo que "há muitas coisas sobre a mente humana que se encontram além de nossa compreensão". 

Essa reviravolta começou quando o doutor assumiu o caso de Catherine, uma jovem nervosa, sobrecarregada de temores, que "para se sentir segura, dormia dentro do armário embutido do apartamento em que morava", que tinha pesadelos, crises de sonambulismo, fobias... Sem encontrar solução para o sofrimento dela, após apelar para todos os recursos ortodoxos de sua área, Weiss recorreu à hipnose, para vasculhar lembranças reprimidas de infância da paciente. E foi voltando no tempo, voltando e voltando que se deparou com revelações e acontecimentos que não só ofertariam um novo rumo à Psiquiatria como uma nova visão da vida e da morte.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Resenha: A morte de Ivan Ilitch (Liev N. Tolstói, 1886)

Ed. Nova Fronteira (2013), 133 páginas
"E viu de forma espantosamente clara que [sua existência] não passava de um imenso e horrendo embuste, que escondia a vida e a morte."

Este livro me foi apresentado não como Literatura mas como Filosofia. Assistia a um vídeo de um curso da The Teaching Company com o sugestivo nome de "The meaning of Life" [O sentido da vida] em meio de cujas 36 lições figurava "Tolstói - Será a vida cotidiana a coisa real?". Foi aí que o professor Jay L. Garfield mencionou "A morte de Ivan Ilitch" e despertou em mim um renovado interesse na obra do escritor russo, havia muito perdido na traumática leitura de "Ana Karenina".

Ao contrário de seu livro mais famoso, "A morte de Ivan Ilitch" é um conto fisicamente curto, de cerca de 70 páginas nesta edição de bolso, mas que porta uma mensagem a ser lida pelo resto da vida. E, aliás, é justo sobre essa releitura, mais da própria existência que do texto impresso, de que trata essa novela de 1886, cujas páginas continuam além da encadernação, dia a dia, em nosso viver desesperadoramente finito.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Resenha: "O duplo" (Fiódor M. Dostoiévski, 1846)

Editora 34 (2011), 256 páginas
"O amigo noturno não era senão ele mesmo - o próprio senhor Golyádkin, outro senhor Golyádkin, mas absolutamente igual a ele -, era, em suma, aquilo que se chama o seu duplo, em todos os sentidos..."

Estamos no ano de 1844, e o nosso jovem escritor Fiódor Dostoiévski escrevera o romance epistolar Gente Pobre, que foi aclamado pela crítica literária russa como sinal de uma revelação. Após publicação deste romance, Dostoiévski é alçado à celebridade literária, situação que, de certa forma, atrapalhará a avaliação das obras seguintes. E é esta obra, objeto da presente resenha, que será seu segundo trabalho. 

Um ano depois do sucesso do seu primeiro romance, temos O Duplo que refletirá o traço peculiar na obra do autor, que é a análise psicológica dos seus personagens. Todavia, tal fator que marcará seu estilo, não foi recebido muito bem pela crítica dessa vez. Os entusiastas da análise social presente em Gente Pobre olham enviesado para o enredo d´O Duplo, onde boa parte da narrativa se atém aos pensamentos e devaneios do protagonista.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Resenha: Laranja Mecânica (Anthony Burgess, 1962)

Ed. Aleph (2004), 200 páginas
"Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível [...] Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da bondade? Será que o homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?" (O chapelão* da Prestata)

Ora ora ora ora, drugui*(amigo) leitor! Pois não é que este livro também é, tipo assim, sobre essas veshkas*(coisas) sacrossantas, hein? O que aquele bizumni*(maluco) do Burgess tinha na sua gúliver*(cabeça) quando o escreveu?

Este livro talvez não chegasse às suas rukas*(mãos) não fosse o cine-cínico*: o próprio autor skazatou*(disse) que o filme homônimo de Stanley Kubrick, de 1971, foi que deu popularidade à obra, tipo assim, glorificando muito pol*(sexo) (o velho entra-e-sai) e a ultraviolência. Burgess disse que o filme facilitou o entendimento errado da obra e que esse desentendimento iria persegui-lo pelo resto de sua jizna*(vida).

E então? Além de conseguir uma tia pecúnia*($$$), que propósito o escritor tinha na rassudok*(mente) dele?

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Resenha: Estação Carandiru (Drauzio Varella, 1999)

Companhia das Letras (2012), 232páginas
"Nada é mais triste na vida de um homem do que acabar seus dias numa cadeia"

Meu caso foi diferente do que comumente se diz por aí: assistir primeiro ao filme foi o que me motivou a procurar o livro. Carandiru (2003) foi marcante. O livro no qual se baseou deveria ser algo mais! Aquela realidade me era desconhecida na prática (graças a Deus!) e na teoria, e o livro, sempre mais rico em reflexões do que qualquer adaptação cinematográfica poderia ser (mesmo uma excelente), decerto apresentaria, com ainda mais propriedade, conhecimentos sobre este submundo que sempre me deixou perplexo: o da mente criminosa. E foi uma mente em particular que me fez pôr Estação Carandiru (1999) em minha lista de desejos, e daí na pilha de leituras pendentes, e então na escala de tempo dispensado ao mergulho consciencial que a literatura tem o poder de nos fazer viver. 

No filme, "Peixeira" (interpretado por Milhem Cortaz) é um assassino que se vê subitamente no limiar do remorso pelas vidas que entregou à morte na ponta da "bicuda". A emocionante cena em que ele adentra uma igreja evangélica e "aceita Jesus", a despeito da arrepiante seqüência da rebelião e invasão do presídio pela PM, que resultou no famigerado massacre de 2 de outubro, com 111 detentos mortos, é a que guardo com maior comoção, tanto pelo milagre do arrependimento redentor como por sua conseqüente escolha de trilhar o caminho inverso dos demais, aquele que o conduziu da morte para a vida.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Palestra da Bienal: Debate sobre Adaptações Literárias


Mesa Redonda: DEBATE SOBRE ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS: LER OU NÃO LER?
Debatedores: Fernando, Silvana, Éster e Maria José / Mediadora: Silvana (*)


Quase todos nós já lemos algum livro, clássico ou contemporâneo, traduzido de uma língua estrangeira. Neste caso, poderíamos dizer que o que lemos foi a obra original, ou seria uma adaptação? Estas e outras questões foram levantadas durante este debate. As abordagens foram diversas, na medida em que cada participante focou a sua área de atuação profissional, o que enriqueceu o diálogo. Assim, considerando estas especialidades, podemos dizer que o debate teve um viés teatral, literário e outro educacional.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Resenha: "Fernão Capelo Gaivota" (Richard Bach, 1970)

Record (2004): 78 páginas
"No que interessa à maioria, o importante não é voar, mas comer. Para essa gaivota, porém, o que importava não era a comida, mas o vôo. Mais do que qualquer outra coisa, Fernão Capelo Gaivota adorava voar."

Obra lida na minha juventude, leitura obrigatória exigida na escola. História curta, que não demandou muito do meu tempo de menina que achava que a vida adulta era algo distante, bem distante da realidade do momento. Lembro que fiquei impressionada com a mensagem, embora não conseguisse compreender tudo o que o autor esperava passar. Acabei lendo outras obras dele que atiçarem essa minha busca pelo meu melhor. A apresentação da ideia que nossa visão era limitada e que há muito mais a aprender e compreender do que pensamos e estamos dispostos a fazer.

Mais tarde, reencontrei esta obra, mas no filme cuja trilha sonora é fantástica. Neste momento, não era mais tão menina, estava conhecendo o amor e este foi o presente que eu guardei no coração dessa experiência. O filme e a música me encantaram, o que me surpreendeu considerando que era um filme sobre gaivotas! Tal qual o livro! O diretor conseguiu, majestosamente levar a ideia do livro para as telas. Obviamente a trilha sonora ajudou muito, pois ouvindo-a que eu senti pela primeira vez a ideia de Deus.
Fernão Capelo Gaivota é a história do que somos, do que buscamos e do que desejamos encontrar em nossas vidas: um sentido muito maior do que o mero sobreviver.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Resenha: "Bling Ring: a gangue de Hollywood" (Nancy Jo Sales, 2013)

Intríseca (2013): 272 páginas
“Pra mim é toda a ideia em torno do narcisismo e dos reality shows da TV e da obsessão com as redes sociais, tudo pelo qual os jovens dessa geração se mostram obcecados – seguiu ela – e do modo como são mimados. Eles – os garotos da Bling Ring – não viam problema em entrar naquelas casas e pegar o que quisessem.”

Entre 2008 e 2009, as residências de Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Paris Hilton e diversas outras celebridades foram invadidas e saqueadas. Os ladrões, um grupo de jovens criados em um endinheirado subúrbio de Los Angeles, levaram o equivalente a 3 milhões de dólares em joias, dinheiro e artigos de grife, como relógios Rolex, bolsas Louis Vuitton, perfumes Chanel e jaquetas Diane von Furstenberg.

Os jovens da Bling Ring iam muitas vezes “às compras”, como se referiam aos seus roubos, munidos de listas de roupas que pertenciam às suas vítimas famosas, itens selecionados a partir de suas pesquisas na internet. As notícias surpreendentes sobre o caso chocaram Hollywood e intrigaram o mundo. Por que esses garotos, que em nada correspondiam à tradicional imagem dos bandidos, realizaram crimes tão ousados?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Resenha: "Um bom professor faz toda a diferença" (Taylor Mali, 2012)


Sextante (2013): 118 páginas
"Os professores preferem se concentrar no verdadeiro objetivo: não necessariamente produzir futuros graduados em Harvard, mas estimular o desenvolvimento de indivíduos que gostem de aprender coisas novas, sejam naturalmente curiosos, confiantes e flexíveis e estejam prontos para qualquer desafio que encontrarem pela frente."

Nesta data dedicada a homenagear o professor, nós do blog sugerimos a leitura desta obra por resgatar o valor desse profissional. Texto direcionado tanto a este, que muitas vezes se vê desmotivado no exercício da profissão, assim como para nós, que fomos, ou ainda somos, alunos. Pois todos nós tivemos um professor que nos ensinou algo. Pode ser aquele professor formal, da escola, como pode ser aquele que encontramos na vida, em momentos únicos e que muito deixam em nossa alma.

O autor escreveu a presente obra para explanar a experiência que tivera, quando, numa reunião social, determinada pessoa tentou denegrir sua carreira. Em resposta, fez uma poesia, pois na hora o sentimento de revolta não lhe permitiu racionalizar uma resposta educada mas contundente à pessoa. Este livro tratará das partes que a compõe, que foi inspirada desta provocação e que acenderá em mil corações o desejo de lecionar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Resenha: Cinzas do Norte (Milton Hatoum, 2005)

Companha das Letras (2005), 312 páginas
“... Ela não chora só por minha causa, pensei naquele momento; chora por si mesma, pela mentira de toda uma vida.”

Quando cheguei a Manaus em 2009, vindo do sul do país, não há como negar o choque. O clima, a cultura, as pessoas, tudo era muito diferente.

Na ânsia de entender um pouco mais da rica cidade, me deparei com Milton Hatoum e sua obra.

“Dois irmãos”, “Relato de um Certo Oriente” e finalmente “Cinzas do Norte”.

Fazendo uso de dramas familiares, Hatoum nos leva a uma compreensão um pouco maior do que é Manaus e de como se formou.

sábado, 11 de outubro de 2014

Projeto Ler é Viver na TV Amazonas!



É com grata satisfação que divulgamos a reportagem que foi ao ar no dia 03/10 no Jornal do Amazonas. Nela, a temática do incentivo à leitura é foco das entrevistas e nós, do Projeto Ler é Viver, não poderíamos ficar de fora! Perdoem a falta de jeito da entrevistada aqui (cof, cof!), desconsiderem o meu sobrenome estar grafado errado (quem nunca?!), pois o que importa é ver nossa iniciativa ser alvo do interesse da mídia. Vejam, curtam, compartilhem! Escolham um livro para doação e outro para leitura! Adotem a ideia do projeto: circular conhecimento!

Acessem e assistam: Servidores de Manaus usam espaço público e criam biblioteca

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Resenha: "Nossos filhos são espíritos" (Hermínio C. Miranda, 1995)


Lachâtre (2012): 240 páginas
"A geração de um corpo humano para que nele se instale um espírito é uma decisão grave, pejada de implicações e consequências. Representa um convite formal a alguém que já existe numa dimensão que nos escapa aos sentidos habituais e que estamos propondo receber, criar e educar, oferecendo-lhe nova oportunidade de vida."
 Obra indicada por um conhecido, que foi escolhida para continuar nossos estudos espíritas aqui em casa, considerando o fato de sermos responsáveis por pequenas almas. Tamanha responsabilidade levou-nos a buscar literatura para compreender sua evolução física. Superada, em parte, esta etapa, passamos para algo mais complexo: a compreensão sobre a alma desses seres tão pequenos e indefesos, mas que acabam nos ensinando mais do que esperávamos.

Esta obra é de leitura fácil e informativa. O autor almeja conversar, iniciando o leitor na compreensão dos termos que serão comumente referenciados no decorrer da obra. Não é voltada exclusivamente para o público espírita, mas, dado os seus fundamentos, traz conceitos que estão intimamente presentes no Espiritismo. O objetivo é conscientizar pais, espíritas ou não, da responsabilidade que lhes recai nas mãos com a chegada de uma criança (seja gerada ou adotada). Uma decisão que deve ser refletida e assumida com seriedade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Coleção de Livros Infantis do Banco Itaú: peça a sua!




O Banco Itaú lança novamente a campanha "Leia para uma criança" disponibilizando gratuitamente dois livros infantis. Basta preencher um cadastro (não precisa ser correntista do banco) e aguardar pelos correios a chegada dos livros. Depois disso, é hora de ler e reler para os pequenos, fazendo da leitura um momento mágico, como tem que ser.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

2ª Feira do Livro de Manaus: 8 a 12 de outubro


Sobre o evento

A 2 º Feira do Livro de Manaus será realizado no Studio 5 Centro de Convenções e contará com uma infraestrutura em perfeita sintonia com o projeto, dispõe de praça de alimentação, banheiros, segurança própria, além de um amplo estacionamento, garantindo-se a todos, o conforto que o ambiente propicia.

No evento acontecerão várias atividades, como salas de bate papo, palestras, apresentação teatral, encontros literários, sessão de autógrafos entre outras atividades em nossa programação, contaremos com várias editoras e livrarias.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Resenha: Comer animais (Jonathan Safran Foer, 2009)

Ed. Rocco (2011), 320 páginas
"Ninguém mais pode negar as proporções sem precedentes dessa sujeição do animal [...] Uma sujeição dessas [...] pode ser chamada de violência no sentido mais moralmente neutro do termo [...] Ninguém pode negar com seriedade, ou durante muito tempo, que os homens fazem tudo o que podem para dissimular essa crueldade ou para escondê-la de si mesmos, a fim de organizar numa escala global o esquecimento ou a compreeensão equivocada dessa violência" (Jacques Derrida, filósofo francês, grifo nosso).

Como diz o título da obra, "Comer animais" é sobre... comer animais. Óbvio? No entanto, não é uma obra gastronômica, nem a favor nem contra o uso de animais na alimentação. O foco não é a boa alimentação, mais saudável para o ser humano, nem a dieta alimentar e seus fins estéticos. É uma visão de fora do antropocentrismo que perscruta essa relação tão perturbadora entre o Homem e o Animal no âmbito do que chamamos "comer". Porque "comer" não é só "alimentar-se",  sob cuja onipresente justificativa de necessidade, questões de capricho pessoal e cultural criaram uma situação de subjugação, do bicho homem sobre as demais criaturas, sem precedentes na história da cadeia alimentar; e "animal", bem, precisa ter seu significado restaurado, precisa ser resgatado de nosso esquecimento voluntário, afinal "você sabe que galinha é galinha, não sabe?".

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Resenha: "Carta a D. - história de um amor" (André Gorz, 2006)

Cosac Naify (2006): 80 páginas
“Preciso reconstruir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

Até o lançamento deste que foi seu último livro, o austríaco André Gorz (pseudônimo do jornalista e filósofo Gerhard Horst) era conhecido por suas obras nas áreas da filosofia e da sociologia, bem como por sua atuação política nos acontecimentos de Maio de 68 na França e em outros eventos marcantes da cultura deste país, onde se radicou.

Carta a D. transformou-o instantaneamente num enorme sucesso literário, com mais de cem mil exemplares vendidos.

O livro foi escrito para homenagear Dorine, sua esposa, com quem partilhou a vida por quase sessenta anos. Desde o início da década de 1990, Gorz vivia em retiro com a mulher, que sofria, há anos, de uma doença degenerativa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Resenha: "Ensaio sobre a lucidez" (José Saramago, 2004)

Companhia das Letras (2004), 325 páginas
"Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento, distribuídos pelo partido da direita, treze por cento, pelo partido do meio, nove por cento, e pelo partido da esquerda, dois e meio por cento. Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de setenta por cento da totalidade, estavam em branco."

Lembro de tomar conhecimento deste autor quando da sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura. O reconhecimento de um escritor da língua portuguesa pela academia pesou para eu buscar conhecer suas obras (hoje, levo em consideração outros critérios, mas estamos falando de uma jovem que se encantava com prêmios e elogios das críticas literárias). Para minha sorte, a indicação e o prêmio atribuídos ao escrito tinham de fato valor. Considerando a aproximação das eleições, acreditamos que a presente obra vem a calhar no atual contexto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Resenha: A revolução dos bichos (George Orwell, 1945)

Companhia das Letras (2007), 152 páginas
"Eram sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma resolução por conta própria".

Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo heterônimo "George Orwell", é o corajoso autor desta fábula estarrecedora, inspirada na tradição do frígio Esopo, do irlandês Jonathan Swift e em sua aguda percepção política que transcende seu tempo. Reconhecendo que a linguagem simbólica dos mitos e fábulas,  a exemplo de "O cordeiro e o lobo" e "As viagens de Gúliver", seria veículo eficiente para externar seu apelo à consciência dos povos, Orwell nos eletriza com esse "conto de fadas" com o intuito claro de nos tirar do torpor em que permitimos a insidiosa apropriação do poder político e social por suínos que chafurdam no lodaçal da corrupção e da prepotência.

No prefácio da edição ucraniana de 1947, Orwell relata uma breve autobiografia em que apresenta os motivos pelos quais escreveu "Animal Farm: a Fairy Story" (literalmente "Fazenda animal: um conto de fadas"), as "experiências através das quais cheguei à minha posição política". Crucial para esse trabalho, iniciado em 1943, foi sua participação ao lado de trotskistas na Guerra Civil Espanhola, 1936/37, tendo sobrevivido a um tiro na garganta e tendo "muita sorte de deixar a Espanha com vida". Havia se tornado pró-socialista "mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados", e à pouca admiração teórica por uma sociedade planificada ajuntou-se a valiosa lição de como era "fácil para a propaganda totalitária controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos". De fato, diria mais tarde que "cada linha de trabalho sério que tenho escrito desde 1936 tem sido escrita direta ou indiretamente contra o totalitarismo". "Assim, os principais contornos da história permaneceram em meu espírito por seis anos antes que eu a escrevesse."

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Resenha: A desobediência civil (David Henry Thoreau, 1849)

Companhia das Letras (2012), 152 páginas
"À diferença daqueles que se dizem antigovernistas, eu não peço a imediata abolição do governo, mas [peço um governo] que seja melhor agora mesmo. Que cada homem faça saber qual é o tipo de governo capaz de conquistar seu respeito, e isso já será um passo na direção de alcançá-lo" (grifo do autor).

Segundo o site Impostômetro, até o dia 15 de setembro de 2014, neste ano foram pagos mais de 1 trilhão, 150 bilhões e 871 milhões de reais em impostos. Mais de 3 milhões por minuto. Quase 6 mil reais por habitante. E ainda faltam três meses para acabar o ano! Em geral, o brasileiro passa 5 meses do ano trabalhando para pagar seus impostos mas, na relação dos 30 países com maior carga tributária do mundo, o Brasil fica em último lugar em retorno de benefícios para a população. Segundo o Fórum Econômico Mundial, de 148 países comparados, o Brasil está muito mal posicionado no "ranking" de infraestrutura, educação, saúde, pesquisa e inovação, segurança pública, etc. Outro dado relevante é do levantamento entre os países do G20 (os 19 países de maior economia, mais a União Europeia): os ricos pagam menos impostos no Brasil que nos demais países. Aqui, a maior incidência de tributação indireta penaliza os mais pobres e subsidia serviços privados justamente para a parcela da população de maior renda (o "bolsa rico"). (Veja mais na seção "Leituras recomendadas", no fim deste artigo.)

Revoltado? Henry David Thoreau (1817 - 1862) demonstrou sua revolta recusando-se a pagar os impostos pessoais durante seis anos. Foi chamado a prestar contas mas manteve a resolução de não conivir com o governo: os impostos financiavam uma guerra (contra o México, que terminou com cerca de 30 mil mortes) e a escravidão, o que, para ele, era um fim amoral dado aos recursos públicos. Dessa forma foi preso, saindo no dia seguinte porque "infelizmente" (segundo suas própria palavras) alguém se propôs a quitar sua dívida. Esse episódio o inspirou a fazer um pronunciamento que, no ano seguinte, seria publicado como "Resistance to Civil Government" ("Resistência ao governo civil"), hoje mais conhecido como "A desobediência civil".

A seguir, mais que uma resenha, um sumário circunstanciado da obra, com fartas citações, incluindo passagens de outros dois textos ("A escravidão em Massachusetts" e "A vida sem princípios"), que também compõem esta edição:

  • A desobediência civil (1849)
  • Onde vivi, e pra quê (1854), 2º. capítulo de "Walden" 
  • A escravidão em Massachusetts (discurso proferido em 4/7/1854) 
  • Caminhar (1862) 
  • Vida sem princípios (1863) 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Palestra da Bienal: Tipos de leitores e seus perfis cognitivos

TIPOS DE LEITORES E SEUS PERFIS COGNITIVOS
PAPEL DO LIVRO E DA LEITURA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Palestrante: Lúcia Santaella 


Quando a palestrante, Lúcia Santaella, iniciou a sua apresentação, mostrando o primeiro slide, imaginei que estava na sala errada, pois o tema da palestra não era exatamente o mesmo que constava na programação, para aquela sala e horário. Sim, pois o título de chamada era O PAPEL DO LIVRO E DA LEITURA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, mas no slide constava: TIPOS DE LEITORES E SEUS PERFIS COGNITIVOS. Realmente são temas diversos, mas que se aproximam e se entrecruzam, pois seria impossível explicar os tipos de leitores sem falar do papel do livro e da leitura na sociedade contemporânea. Assim, fiquei ainda mais curioso e resolvi assistir a palestra, principalmente após ouvir as qualificações e a quantidade de livros e artigos já escritos pela palestrante: mais de 40 livros e 167 artigos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Resenha: "O pequeno príncipe" (Antoine Saint-Exupéry, 1943)

Editora Agir: 96 páginas
Como resenhar uma obra que é tão conhecida? Até mesmo quem não tenha lido, lembra de alguma citação que foi dita ou escrita por alguém em algum lugar. Quem não sabe de memória as citações: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" e "(...) só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos."?

O fato de uma obra ser conhecida não significa que tenha sido efetivamente lida. Eis a motivação da resenha: despertar-te, estimado leitor, para a leitura desta obra. Para que não só saibas alguma passagem, mas para atiçar em ti o desejo de conhecer por completo a história desse menino, que surge no meio do deserto e leva um aviador maduro e solitário a repensar seus conceitos de vida. A leitura é rápida e agradável, não vais te arrepender; e ainda voltarás para agradecer a dica!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Resenha: Terra dos homens (Antoine de Saint-Exupéry, 1939)

Ed. Nova Fronteira (2014), 160 pág.
"Quando temos consciência do nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte." (Saint-Exupéry)

"No oceano da escuridão" de tantas distrações depauperadoras do mundo moderno, aquele que lê esta obra septuagenária "se enriquece com a descoberta de outras consciências" - e o milagre da luz de uma consciência faz 'os homens se olharem com um grande sorriso'. 

Se faço uma paráfrase das palavras do próprio autor para apresentar seu livro, é que me falta a arte de sua concepção, pois o pensamento de Antoine Marie Jean-Baptiste Roger de Saint-Exupéry, um piloto de linha, voava mais alto que seu avião.

Aficionado por aviação,  Exupéry escreve em "Terra dos homens" uma apologia ao poder transformador do trabalho, especialmente naquilo em que, "ao se medir com um obstáculo, o homem aprende a se conhecer", e em que as relações humanas - o único "luxo verdadeiro" - ressaltam a moral de que "a grandeza de uma profissão é, antes de tudo, unir os homens".

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Resenha: "Sexo e Destino" (Chico Xavier e Waldo Vieira, 1963)

FEB (2009), 456 páginas
"Reduzi, quanto puderes, as quedas de consciência! Quando não seja por vós, fazei-o pelos mortos, que vos amam de uma vida mais bela!"

Grande romance psicografado pelos médiuns Waldo Vieira e Chico Xavier, "Sexo e Destino" traz um valioso estudo de caso em que o sexo aparece como pivô das mais diversas vicissitudes da vida do Homem, tanto como força de derrocada moral, sob o desvio impresso pelos desvarios sentimentais, quanto "atributo divino na individualidade humana", ensejando a sublimação dos seres.

Com o manifesto objetivo de que possamos "aprender com a biblioteca da experiência", o autor espiritual alinhava uma trama na qual os personagens desta "biografia de grupo" tomarão a lição de que "o amor e o sexo plasmam responsabilidades naturais na consciência de cada um e que ninguém lesa alguém nos tesouros afetivos sem dolorosas reparações". 

Apresentando os casos como verídicos, em mensagem psicografada em julho de 1963, o autor prefacia sua pungente narrativa elucidando que "sexo e destino, amor e consciência, liberdade e compromisso, culpa e resgate, lar e reencarnação constituem os temas deste livro, nascido na forja da realidade cotidiana".

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Resenha: "Kama Sutra" (Mallanaga Vatsyayana, 1883 - versão inglesa)

Ed. Martin Claret (2004), 190 páginas
"Kama é a fruição dos objetos apropriados pelos cinco sentidos: a audição, o tato, a visão, o paladar e o olfato, auxiliados pela mente e em conjunto com a alma.

"O principal, aqui, é um contato especial entre o órgão do sentido e seu objeto: a consciência do prazer oriunda desse contato chama-se Kama.

"Kama deve ser aprendido nos Kama Sutra (Aforismos Sobre o Amor) e com os hábitos dos cidadãos."

Ficou interessado, não é, estimado leitor? Eis uma obra que poucos devem ter lido por completo, ou sequer conheceram, mas dificilmente não haverá alguém que não associe "Kama Sutra" a posições sexuais de tirar o fôlego. Bom, se não é o teu caso, leitor, era o meu. E, como um dos intuitos da nossa proposta de resenhas é quebrar paradigmas sobre as obras clássicas, eis um desafio diante de um clássico da literatura hindu.
Mente aberta,  iniciei a leitura, numa versão sem figuras, excetuando a que está na capa (para manter o foco da mensagem: minha sugestão): exclusivamente texto. Eis uma obra que me surpreendeu, porque, contrário ao que eu pensava, as partes que tanto nos são conhecidas (as descrições de posições sexuais) não é o que se destaca.

O processo de amar que ocorre num relacionamento amoroso tem no contato físico uma das formas de demonstração de afeto. Notar a reciprocidade de desejo de um casal é um dos termômetros de sintonia, mas não o único. Eis a grande surpresa: o ato físico de amor como filosofia de vida - uma brincadeira a ser feita entre os amantes para aproximar e fortalecer a relação, contribuindo para o desenvolvimento do amor. Acredite, mais do que um manual sexual, "Kama Sutra" lhe fará refletir sobre a magia desse encontro e, por vezes, irás rir muito em certas passagens.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Palestra da Bienal: Como Apreciar um Livro

COMO APRECIAR UM LIVRO
A ARTE DE LER NAS ENTRELINHAS

Palestrante: Pedro Almeida

O que faz de um livro um sucesso de vendas? A resposta a esta pergunta é também a resposta para o tema da palestra: "Um livro faz sucesso quando faz sentido para muitas pessoas". E fazer sentido significa que o leitor se identificou com os personagens e conseguiu "entrar" na trama do livro. E o leitor entra na trama do livro quando consegue enxergar alguma parte da sua própria realidade, história ou anseios, dentro da trama do livro. Isso ocorre porque ele associa, liga, o seu conhecimento anterior, de outras leituras ou experiências de vida, para perceber o que o autor está dizendo nas entrelinhas. Como nos disse o palestrante: "A arte de ler nas entrelinhas é pensar na literatura como uma brincadeira de ligar pontos".

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Resenha: "A arte de amar" (Erich Fromm, 1956)

Ed. Itatiaia (1958), 171 páginas
"Quem nada conhece, nada ama. Quem nada pode fazer, nada compreende. Quem nada compreende, nada vale. Mas quem compreende também ama, observa, vê... Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa, tanto maior o amor... Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas." (Paracelso)

Esta é a citação que consta do livro antes de iniciarmos a leitura, o que, de certa forma, possibilita um vislumbre da proposta do autor. Não se trata de um tratado a respeito do amor, é uma obra curta. Contudo, não te iluda leitor, pois cada parágrafo possui uma mensagem para refletir; o que nos faz parar para pensar e perguntar: "Será?"

Conheci Erich Fromm pela aquisição da obra "Anatomia da Destrutividade Humana", por indicação de um amigo (aguardem resenha para o próximo ano. "Excelente obra!"). Encantada pela fluidez do texto e sua lógica de pensamento, resolvi pesquisar outros trabalhos de sua autoria. Foi quando cheguei nesse livro, cujo título me arrebatou na hora: "A Arte de Amar". Quis saber o que ele tinha a me dizer a respeito do amor. Feito o pedido na Estante Virtual, o intervalo entre a espera e chegada da obra encheu-me de expectativas. Iniciada a leitura, não me decepcionei. Não se trata de romance, e nem de texto técnico. O autor consegue conversar com o leitor, fazendo as pausas necessárias para que o mesmo possa refletir a cada argumentação ou questionamento.

Antes mesmo de chegar à última página, já teria encomendado outras edições para doação ao Projeto Ler é Viver. Sabe aquele livro que te conquista e tu queres que todos que tu conheces, ou não, também leiam? Foi assim que me senti: inebriada. Vou te contar a razão de tudo isso... só um pouquinho. Espero que o suficiente para despertar em ti, estimado leitor, a curiosidade de também descobrir o que este livro tem a te dizer.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Resenha: Grandes Esperanças (Charles Dickens, 1861)

Ed. Landmark (2013): 528 páginas
"No pequeno mundo em que vivem as crianças, não importa quem as crie, nada é mais delicadamente percebido, nada é mais delicadamente sentido que a injustiça."

Charles Dickens foi um escritor inglês muito popular no Reino Unido durante a era vitoriana (período de reinado da Rainha Vitória que se iniciou em junho de 1837 e se estendeu até janeiro de 1901). A primeira infância foi caracteriza por um padrão de vida razoável, que lhe permitiu estudos de qualidade e leituras dos clássicos que lhe influenciaram depois.

Todavia, por conta da prisão do pai por dívidas, foi obrigado a trabalhar, quando fez 12 anos,  "na empresa Warren’s onde se produzia graxa para os sapatos com betume, junto à actual Estação ferroviária de Charing Cross. O seu trabalho consistia em colar rótulos nos frascos de graxa, ganhando, por isso, seis xelins por semana. Com o dinheiro, sustentava a família, encarcerada na prisão para devedores, em Moure onde ia dormir"  (saiba mais aqui).

Notaremos em seus romances uma crítica social, não muito comum na época, sobre as condições de trabalho e a questão da possibilidade de ascensão social vinculada a fatores externos, como o recebimento de herança. Sendo esta última a situação vivida por seu pai que os fez melhorar de vida novamente, embora sua mãe o tenha mantido na fábrica ainda por certo tempo, fato que lhe deixou mágoas.

Entre dezembro de 1860 e agosto de 1861, publicara na revista semanal "All the year round" o folhetim que deu origem ao romance "Grandes Esperanças".

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Bienal Internacional de São Paulo: 2016 tem mais!

23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo: impressões dos últimos dias

A Bienal de São Paulo pode ser um evento comercial, cultural ou de entretenimento, a depender do propósito de cada pessoa. No meu caso, posso dizer que foi um pouco de tudo, pois assisti algumas palestras, comprei vários livros e me diverti apreciando o clima da feira. Nos três dias em que lá estive, fiquei impressionado com a grandiosidade do evento e imaginando o trabalho que deve dar a preparação de um feito deste vulto. Acredito que todas as médias e grandes editoras do Brasil se fizeram presentes. Mas senti falta das editoras internacionais, muito poucas mesmo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Resenha: "Em busca de sentido" (Viktor E. Frankl, 1946)

Ed. Vozes (2008), 184 páginas
 "Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como" (Nietzsche)

Prezado leitor, eis uma obra que deves ler com cuidado.

Se gostas de História, de saber detalhes sobre os fatos que fazem parte dos livros que estudamos na escola; ou és alguém que aprecia relatos pessoais, situações extremas, que nos levam a "vivenciar" o que, para nós, distantes no tempo, é só um fato com data e personagens para lembrar na hora de uma prova... Enfim, qual seja o teu perfil, este livro é para alguém que está preparado para ler um depoimento sensível e, ao mesmo tempo, consciente sobre os acontecimentos num campo de concentração na época da II Guerra Mundial. Acontecimentos que nos chocam e nos atemorizam por ainda notá-los nos dias de hoje.

O diferencial deste livro, para outras obras que narram vivências semelhantes, é o autor ser médico, especialista em Psiquiatria. Alguém que perdeu o pai, a mãe, o irmão e sua esposa, com quem se casara em 1941 (no ano seguinte, todos estariam em campos de concentração). Sem saber de seus entes queridos, de sua amada esposa, Viktor E. Frankl precisa conviver diariamente com a dor e a perda da sensibilidade diante das atrocidades vividas e vistas. O que poderia fazer sentido em se manter vivo? O que poderia levar um homem suportar um dia de cada vez, entregue ao destino, temendo, inclusive, qualquer tomada de decisão, dada a apatia em que se encontrava? Conheça um pouco mais sobre esta obra, que nos apresentará a linha Psicoterapêutica desenvolvida pelo autor chamada Logoterapia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Resenha: "Gente Pobre" (Fiódor M. Dostoiévski, 1846)


Ed. 34 (2009): 192 páginas
Quem tem medo de ler obras clássicas? E se essa obra clássica for de um escritor russo? O medo aumenta?  Então tenho boas notícias: li a obra "Gente Pobre", de Fiódor Dostoiévski e sobrevivi!! E, melhor ainda, gostei!! Queres saber como isto aconteceu? Vou te contar algumas pequenas coisas, só para teres ideia, pois saber mesmo só quando leres a obra. É uma sensação maravilhosa quando quebramos o mito das leituras inacessíveis. Eu garanto!

Para começar, vamos falar de Fiódor Dostoiévski, conhecido pelos romances "Crime e Castigo" e os "Irmãos Karamazóv" (deixemos essas obras para o futuro… neste momento daremos pequenos passos, certo?). Nascido em Moscou (Rússia), no dia 30 de outubro de 1821, filho de um médico que fora assassinado por seus próprios serviçais de sua pequena propriedade rural em 1839, sendo que no ano anterior sua mãe morrera de tuberculose. Assim, aos 18 anos, nosso escritor é órfão  e está fazendo parte da Escola de Engenharia Militar de São Petesburgo, na qual engressara em 1838.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Projeto Ler é Viver visitou a Bienal !

23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo: no olhar de quem a visitou.

Estive em São Paulo entre os dias 23 e 25 de agosto e, como amante da literatura, não pude deixar de visitar a Bienal do Livro.

A Bienal reúne as principais editoras, livrarias e distribuidoras do país. São cerca de 480 expositores participantes que apresentarão para 800.000 visitantes seus mais importantes lançamentos em um espaço total de 60.000 m².

O evento, realizado no período de 22 a 31 de agosto, conta com uma programação abrangente e diversificada, mesclando literatura com diversão, negócios, gastronomia e cultura.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resenha: "Memórias de minhas putas tristes" (Gabriel García Márquez, 2004)

Record (2005), 132 páginas
"No ano que completei noventa anos, quis presentear-me com uma noite de amor louco com uma adolescente virgem".

É assim, sem a menor cerimônia, que Gabriel García Márquez apresenta a história do solitário jornalista de um jornal provinciano que, ao completar 90 anos, escolhe a luxúria como forma de provar a si e ao mundo que ainda está vivo.

O título do livro, dependendo de grau de moralismo de cada um, pode levar o leitor mais apressado a ficar com um pé atrás e questionar se não está diante de uma história de insólita libertinagem ou se o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura teria se transformado num velho safado.

Contudo, basta evoluir um pouco na leitura para afastar essas impressões iniciais e perceber que nada disso se confirma no decorrer da obra.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Resenha: "1889" (Laurentino Gomes, 2013)

Ed. Globo, 416 páginas
"República no Brasil é coisa impossível (...) O único sustentáculo do nosso Brasil é a Monarquia. (...) Porquanto República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa." (Marechal Deodoro)

"Vejam os senhores, quem lucrou no meio de tudo aquilo foi o cavalo!" (Marechal Deodoro)

Último livro da famosa trilogia sobre a formação do Brasil enquanto nação, "1889" mantém a linha proposta pelo autor, o jornalista paranaense Laurentino Gomes, apresentando vasto cabedal de informações de forma clara e cativante. Sua abordagem do tema tem mostrado a muito brasileiro recalcitrante que leitura e História são sim atividades tão prazerosas quanto interessantes, reavendo, nos corações de estudantes e curiosos, o sentimento único na espécie humana que a faz voltar seus pensamentos para o passado em busca de respostas, por meio dum estilo redacional jornalístico, que mostra tão atuais como relevantes os acontecimentos pretéritos que confluíram para as questões palpitantes de nossa cidadania contemporânea.

Os 24 capítulos do texto propriamente dito são divididos em cinco grupos (sem identificação tipográfica), que abordam facetas distintas do processo que implantou o sistema republicano de governo no país. Além disso, complementa a exposição principal uma cronologia do "fim de século revolucionário" em que se insere o tema da obra, antes da Introdução, e oito lâminas em dois grupos, intercalados no texto, contendo 42 gravuras retratando personagens e eventos históricos mencionados.

A Introdução e os capítulos são sintetizados abaixo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Resenha: "1822" (Laurentino Gomes, 2010)

Ed. Nova Fronteira, 351 páginas
“1822” é o segundo livro da série escrita por Laurentino Gomes para retratar os principais acontecimentos da história brasileira ao longo do século 19. Abrange o intervalo compreendido entre o retorno da família real a Lisboa e a morte de D. Pedro I. A fórmula de sucesso de “1808” foi mantida: há um instigante resumo-do-resumo na capa e o texto é leve e descomplicado, mas ao mesmo tempo detalhista e repleto de referências bibliográficas, permitindo que o leitor reconstrua, de forma confiável, a realidade daquela época.

Embora muito parecido com o antecessor no formato, “1822” é mais gostoso de ler. Nele, não ocorreu a abordagem exaustiva de figuras pouco importantes para o desenrolar dos fatos (caso do arquivista José Joaquim dos Santos Marrocos e sua família, que receberam uma atenção especial em “1808”). Além disso, a mistura de sentimentos que a narrativa evoca é mais diversificada, trazendo doses de humor (presente, por exemplo, na descrição do grito da Independência, dado por um príncipe transtornado pela diarreia), drama (confira a trajetória de vida da princesa Leopoldina e a solidão do pequeno Pedro de Alcântara), erotismo (que permeiou a relação entre D. Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos) e heroísmo épico (principalmente no penúltimo capítulo, sobre as lutas travadas pelos liberais até vencerem o exército absolutista em Portugal, contrariando todas as probabilidades de fracasso). 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Resenha: "O estrangeiro" (Albert Camus, 1942)

Ed. Record, 122 páginas
"Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar" (Meursault, protagonista de "O estrangeiro").

Este é o primeiro romance do filósofo franco-argelino Albert Camus (pronuncia-se /albérr kãmü/, com "biquinho"), laureado com o prêmio Nobel de 1957 "por sua importante produção literária que, com clarividente seriedade, ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos". É considerado uma das mais espetaculares estreias literárias de seu século.

O enfoque de Camus é corriqueiramente classificado como existencialista, o que o associa, a contra-gosto, a Sartre, embora sempre referisse a si mesmo como "filósofo do absurdo". Produzindo nessa linha, Camus espera que os paradoxos propostos em sua obra promovam o debate público, o que, no caso de "O estrangeiro", gira em torno da questão quanto a se o alheamento de uma pessoa aos sentimentos de seu tempo e cultura permitem-nos pelo menos presumir sua inocência.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Resenha: "Admirável mundo novo" (Aldous Huxley,1932)

Ed. Globo (2009), 398 páginas
"Cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais do que a verdade e a beleza, o que importava"

"E se...?". A faculdade de imaginação praticamente impossibilita o homem de permanecer inculpe no exercício de seu livre-arbítrio. Aldous Huxley propõe nesta obra um formidável desdobramento ficcional de decisões e valores que vêm se formando e intensificando desde que a Ciência e a Tecnologia, ao contrário do sábado, deixaram de ser feitas para o homem, e restringiram a uma única alternativa a solução para a felicidade, cujo conceito também se restringiu a standards praticáveis em esteira de produção.

De fato, retomando a antiga ferramenta lógica do "reductio ad absurdum" (redução ao absurdo), de que Platão se valeu para a construção de sua "República", Huxley erige uma utopia no ano 2540 d.C. como conseqüência de premissas já assentes na constituição moral da sociedade no início do séc. XX. Data emblemática desta "transvaloração de todos os valores", como diria Nietzsche, o ano da fabricação do primeiro automóvel Modelo "T", 1908, torna-se o marco inicial desta nova era que deixou para trás "uma coisa chamada Cristianismo", "uma coisa chamada Deus", "a liberdade de ser ineficiente e infeliz" e "a ética e a filosofia do subconsumo".

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Resenha: "1808" (Laurentino Gomes, 2007)

Ed. Planeta: 367 páginas
"Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil".

Laurentino Gomes, jornalista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, já coloca na capa do livro informações a respeito da sua obra que nos fazem, no mínimo, ficarmos curiosos com o que será apresentado. Trata-se de conteúdo com o qual todo estudante já teve contato, sabendo sua trajetória e desfecho: a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, em fuga à investida de Napoleão Bonaparte na Europa. O diferencial, contudo, é o estilo da abordagem: o autor consegue transformar um evento histórico em algo "jornalístico", fazendo-nos sentir como se vivêssemos os acontecimentos naquele momento.

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